Na verdade trata-se de um álbum muito previsível. Lê-se: The Thelonious Monk Quartet with John Coltrane At Carnegie Hall e sua qualidade absurda torna-se previsível apenas com a leitura, não necessariamente muito atenta, de seu título. É a junção dos dedos rígidos, se assemelhando a baquetas, de Monk com a total falta de noção de Coltrane, que, só para variar, arrasa o quarteirão inteiro quando inicia seus solos.
Thelonious Monk é um pianista único, um matemático que compunha melodias e criava ritmos nada usuais. Seus dedos eram rígidos, deixava-os perfeitamente eretos, e os batia nas teclas tal qual uma baqueta faria em um tambor. Preciso, fazia com duas ou três notas o que outros pianistas faziam com nove ou dez. Era um “teclador de elite”, cada nota entrava perfeitamente no contexto da música, numa mistura melódica e rítmica. Somente notas necessárias e muito bem trabalhadas. Nesse sentido sua característica se aproxima com a de Miles Davis, notas poucas e boas, aliás, perfeitas. Excêntrico, Thelonious não era muito bem visto pela crítica da época, porém era unanimidade entre os jazzistas. Por anos andou apagado, sumido dos bares de Jazz, e isso deve-se a um acontecimento muito infeliz. Em 1951 a polícia novaiorquina encontrou narcóticos no carro de Bud Powell, amigo de Monk. Ambos os músicos estavam presentes durante a apreensão e como o carro era de Powell, a polícia ligou-o com as drogas. Thelonious negou-se veementemente a testemunhar contra o seu amigo e por isso foi impedido de tocar em qualquer lugar que vendesse álcool por alguns anos. Tal acontecimento fez com que Monk se restringisse à composição, apresentações em teatros (exatamente a situação da gravação deste disco) e gravações no início dos 50′s até mais ou menos 1957. Sobre o seu estilo, pode-se dizer que era semelhante ao Bebop, sendo ele o maior pianista do estilo inaugurado por Bird e Diz.
Pois bem, John Coltrane é um velho conhecido dos leitores deste blog, impossível não admirar este que talvez seja o maior saxofonista que já caminhou por estas bandas terráqueas. Sua virtuose saxofônica enriquece DEMAIS as composições de Monk: Sheets of Sound, Trane’s Changes e todas estas técnicas que beiram o limite da capacidade humana aparecem NATURALMENTE em boa parte de seus solos durante este incrível show.
Uél galéura, a Obra, com letra maiúscula, é certamente necessária na coleção jazzística destas pessoas ABENÇOADAS que já curtem este gênero negro. Com fins didáticos, creio que também faz-se imprescindível o download aos que estão introduzindo seus ouvidos a este complexo mundo musical. Peço maior atenção de vossos tímpanos especialmente nas faixas Epistrophy (a primeira), Crepuscule With Nellie e Blue Monk. Notem Thelonious, notem John.
As faixas:
- Monk’s Mood
- Evidence
- Crepuscule With Nellie
- Nutty
- Epistrophy
- Bye-Ya
- Sweet And Lovely
- Blue Monk
- Epistrophy
Os músicos:
- Thelonious Monk – Piano
- John Coltrane – Sax Tenor
- Ahmed Abdul-Malik – Baixo
- Shadow Wilson – Bateria
O álbum.
Appaz



on Jun 3rd, 2010 at 7:43 pm
O dado bizarro sobre este disco é que a fita com a gravação que lhe deu origem, de um concerto em 1957, permaneceu incógnita num arquivo da Biblioteca do Congresso até ser resgatada por um diligente funcionário em 2005.
A história completa: http://en.wikipedia.org/wiki/Thelonious_Monk_Quartet_with_John_Coltrane_at_Carnegie_Hall
on Jun 4th, 2010 at 1:02 am
Sim! eu li isso, mas só depois que eu já tinha escrito o post…
Uma historia fantástica, seria bom se achassem mais fitas dessa qualidade… hehehe
on Aug 19th, 2010 at 5:46 pm
E quem deu uma “limpada” nas gravações foi o Grand Mixer DXT. Famoso DJ de hip-hop e que é o responsável pelos scratches na famosa música ‘Rock It’ de Herbie Hancock.