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Igor Stravinsky – A História do Soldado

Em 1918, Igor Stravinsky escreveu uma de suas mais importantes e conhecidas obras, A História do Soldado.
Stravinsky concebeu sua criação como sendo uma obra praticamente teatral, uma história para ser lida, atuada e dançada.
Foi inspirado em um conto folclórico russo, apesar de a versão final ter sofrido modificações do autor, onde um soldado troca seu violino com o Diabo em troca de um livro que poderia prever o futuro.
É executada com um septeto, violino, contra-baixo, clarinete, fagote, corneta (embora seja diversas vezes trocada por um trompete), trombone e percussão, além disso a história tem três narradores, o soldado, o Diabo e um narrador em terceira pessoa.
A música tem características bastante modernas, pela dificuldade da marcação temporal, é muitas vezes apresentada com maestro, embora algumas “ensembles” prefiram não recorrer a tal ajuda.

A verdade é que ando vidrado em Igor Stravinsky e por isso me sinto na obrigação de vos oferecer a oportunidade de também viciarem-se neste russo malhado.
Vê-se claramente as tendências sex-simbólicas vertendo do maestro, certamente uma inspiração para os futuros roqueiros setentistas.

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Pois bem, agora vamos à História do Soldado.

NARRAÇÃO

NO TEMPO MUSICAL

Cansado de caminhar, um soldado volta ao lar.
Vem de muito longe. Andou, andou, muito ele andou.
Só tem dez dias de folga.
Impaciente por chegar e já morto de tanto andar.

ANTES DA CENA 1

O soldado sentou-se à beira de um regato e abriu seu embornal.

“ – Que lindo lugar…, se não fosse esta vida!!!
Sempre marchando, sem nenhum tostão…
Vejam só! Meus trastes todos de pernas pro ar!!!
Até a medalha de São João, meu padroeiro, eu perdi ….. achei, que sorte!!!
Puxa, nada de dinheiro….”

E o Soldado continua a remexer suas coisas, papéis, cartuchos, um espelho que mal refletia sua imagem. A foto da noiva, mas continuou procurando, procurando, até encontrar seu querido violino. Enquanto afina o violino, pensa:

“ – Bem se vê que é ordinário, precisa afiná-lo o tempo todo…”

E começa a tocar…

LER NA CIFRA 17

Eis que surge o Diabo, disfarçado de um velho caçador de borboletas, o Soldado não o viu. O Diabo se aproxima e se coloca atrás dele.

LER ANTES DA CENA 2

“ – Ei, Soldado, me dá esse violino!!!”
“ – Não!!!” – responde o Soldado
“ – Vende então!!!”
“ – Também não!!!!”
O Diabo pega um livro que traz consigo e sugere:
“ – Troca por esse livro.”
“ – Eu não sei ler” – diz o soldado.
Mas o Diabo insiste:
“ – Não é preciso saber ler, quere apostar? Trata-se de um verdadeiro tesouro, é só abri-lo e embasbacar! Jóias, moedas, ouro!!!”

O Soldado pede para ver o livro antes da troca, e o Diabo aceita.
“ – Não adianta tentar ler, soldado, pois não vai entender nada.”
“ – É, eu não entendo nada.”
Mas o Diabo o anima:
“ – Vai, vai folheando, vai folheando…”
O Soldado continua:
“- Mas esse livro vale muito dinheiro, meu senhor, e o violino não me custou quase nada!”
Mesmo assim o Diabo insiste na troca, que finalmente é feita.
O Diabo, após ter tentado tocar o violino, pergunta ao Soldado:
“- Como é, vem comigo?”
“ – Para que, meu senhor?”
“- Você tem que me ensinar a tocar.”
“ – Mas eu só tenho 10 dias de folga.”
“ – Eu te empresto meu carro, não há distância que não vença.”
“- Mas minha mãe e minha noiva estão esperando.”
“ – Logo irá vê-las.”
“ – Mas qual é o caminho?”

“–Irá no meu carro alado, ficará bem hospedado, limpo, descansado, 2 ou 3 dias de passeio extraordinário, e depois, para sempre milionário.”

“ – E o que vamos comer? Pergunta o soldado”
“ – Manjares até não mais poder.”
Arrumando animado suas coisas o Soldado continua:
“ – E prá molhar a goela?”
“ – Vinho velho e delicado.”
“- E a gente pode fumar?”
“- Charutos de Havana, os melhores….”
“- Pois bem, meu senhor, estou a sua disposição.”
“ – Vem comigo, então.”

TOCA MÚSICA CENA 2

E o velho levou o Soldado consigo, e veremos que disse exatamente a verdade, pois o Soldado João pôde comer e beber a vontade. Foi muito bem tratado e ensinou o velho a tocar o violino para, em troca, o livro poder folhear.

SEGUE MÚSICA CENA 2

LER APÓS FERMATA DA CIFRA 5, DURANTE REPETIÇÕES DA MÚSICA DE CENA 2

Dois dias o Soldado passou prazenteiro, mas finalmente veio o terceiro quando, assustado com a enlouquecida disparada do carro alado, vê-se em seu velho lar e reconhece seus amigos e familiares que não lhe dirigem nem mesmo uma palavra. João fica muito perturbado:

“ – Não foram 3 dias, mas 3 anos!!! Tomam-me por um fantasma, não passo de um morto entre os vivos. Devia ter desconfiado dele, mas fiquei a ouvi-lo como um pateta, e até meu violino eu entreguei. Desgraçado de mim o que é que eu vou fazer???”

Enquanto isso, agora disfarçado de negociante, o Diabo se aproxima sem o Soldado perceber.

CENA II DA 6

Então, vendo o Diabo, parte em sua direção para o ataque, mas este, com grande lábia, ilude novamente o Soldado mostrando-lhe seu violino e dizendo:

“ – O que é meu é meu, o que é teu é teu . Agora cada um com o que é seu.”

SUONA DA 6
João começou a ler o livro, e o resultado foi cada vez mais dinheiro, dinheiro, dinheiro. Leu quanto pode e tirou quanto quis e com todo aquele dinheiro pensou logo em negociar, artigos de senhoras primeiro. E assim foi só começar. Mas, arrependido começa a pensar.

“ –Ah!!! Meus fins-de-semana, minhas noites de sábado, quando as moças regavam o jardim… As meninas brincavam de cabra cega, a gente atravessava o portão, sentava-se na relva, tomava um refresco. Ah! As coisas simples, as únicas que falam ao coração. Eles não têm nada e têm tudo, e eu, que tenho tudo, nada tenho!!! Nada, nada, e não posso voltar atrás. Satã, tu me roubaste!!! O que fazer? Será que o livro explica? Ei livro, pode me responder o que fazer para ser feliz??? O que fazer para nada ter??? Você deve saber… o que fazer para retroceder???”

Então ouve a voz de uma velhinha com várias coisas a vender, inclusive um violino que muito lhe interessa. O Soldado João tenta tocar, mas o violino permanece mudo. Ele procura a velhinha, que era novamente o diabo disfarçado, mas ele sumiu, e João irritado atira o violino ao chão.

CENA III – PARTE 2 – MARCHA DO SOLDADO

Cansado de caminhar, o Soldado segue em frente. Aonde ele vai assim? Anda há tanto tempo! Passa o riacho e depois a ponte. Aonde ele vai? Alguém sabe?

Nem mesmo ele sabe para onde ir, pega então outra estrada, sem suas riquezas, tentando ser de novo como outrora. Eis que surge um outro lugar, uma linda cidade, um bar, que felicidade!!! Beber um trago, que tal??? Um golinho não faz mal. E olhando para fora, pôs-se a contemplar a paisagem, o leve tremer da folhagem, muito suave àquela hora. De repente ouve-se o rufar de um tambor.

CAIXA ENTRA
É o Rei desesperado com o grave estado de sua filha! Ela está enlouquecendo de dor! O Rei anuncia que dará a mão da princesa àquele que a curar.

PARADA DA CAIXA

Neste momento João ouve uma voz a lhe falar:

“ –Que tal a princesa? Vai lá e banca o médico, nada irá arriscar, diga: ‘Sou médico militar’. Mesmo que não dê certo, vale a pena tentar… ”

Por que não? O Soldado ergue-se animado e vai embora sem demora. E nos jardins do Palácio os guardas lhe perguntam:

“ –Onde vai com tanta pressa?”
“ –À casa do Rei, ora essa!!!”

TOCA A MARCHA REAL

LER ANTES DO PEQUENO CONCERTO

Mandaram tocar a música na chegada do Soldado ao Palácio, ele foi muito bem recebido, até que o Rei chegou e perguntou se ele era médico, João respondeu: sou médico militar. O Rei estava desanimado, pois vários médicos tentaram curar a princesa, mas todos fracassaram, João lhe garantiu que tinha um remédio infalível. Então o Rei lhe disse:

“ – Amanhã verá minha filha.”
Durante a noite João fica num quarto brincando com um baralho e pensando:

“ –Vou me casar com a Princesa, que além disso é uma beleza…”

Ao pensar, isso ouviu uma voz muito conhecida dizendo:

“ –Alguém chegou primeiro…”

Era o Diabo com o violino.

“ –Está perdido meu amigo, pois o remédio está comigo.”

E o Soldado cabisbaixo reconhece que o Diabo tem o poder, pois ele tem o remédio e João nada pode fazer.

Novamente João ouve alguém falando para ele.

“ –Vamos, você tem que dominá-lo, ele está te dominando porque você está com o dinheiro, jogue com ele e deixe-o ganhar.”

Começa o jogo, e o Soldado propositadamente perde todas as partidas, e à medida que o Diabo vai ganhando, vai perdendo suas forças. João dá bebida ao Diabo que está cada vez mais fraco. João tenta pegar o violino, mas o diabo ainda não bebeu o suficiente, João vira vários copos na boca do Diabo, que finalmente cai desmaiado.

Novamente a voz fala a João:

“– Vamos, Soldado, recupera o que é teu!!!”
O Soldado pega o violino e começa a tocar.

TOCA PEQUENO CONCERTO

LER CIFRA 28
“–Senhorita, agora já se pode afirmar que com certeza vai sarar, vamos depressa vê-la, pois que já podemos tê-la, e quando a encontrar é só chegar e ousar, vou correndo para lá, sou forte. Saí do inferno, vou tirá-la da morte”.

João entra no quarto e vê a Princesa deitada na cama, sem se mexer. Ele pega o violino e começa a tocar.

LER ANTES DA CIFRA 4

A Princesa abre os olhos, vira-se para o Soldado e senta-se na cama.

TOCA O TANGO, VALSA E RAGTIME

LER ANTES DA DANÇA DO DIABO

O Soldado e a Princesa estão se beijando no quarto, quando ouvem gritos horríveis vindos do lado de fora. É o Diabo que entra no quarto, dessa vez sem nenhum disfarce, e fica rodeando o soldado e suplicando para que ele lhe dê o violino e algumas vezes tenta arrancar o instrumento à força. A Princesa refugia-se atrás do Soldado de maneira a conservar-se escondida atrás dele. O Diabo, ora recua, ora salta e o Soldado começa a tocar o violino.

TOCA MÚSICA DANÇA DO DIABO

LER ANTES DO PEQUENO CORAL

Em vão, o Diabo tenta unir as pernas com as mãos. Cai no chão. O Soldado toma a Princesa pela mão, vê-se que ele não tem medo e dança com ela em volta do Diabo.

A Princesa pega o Diabo por uma das patas, ambos o arrastam para fora do quarto.

Livres do Diabo voltam a se abraçar.

TOCA O PEQUENO CORAL

LER DURANTE A CANÇÃO DO DIABO

“ –Está bem, por enquanto.” – diz o Diabo – “Mas o reino não é tão grande assim, e quem a fronteira passar em meu poder há de ficar. Melhor não ir além do permitido, senão a bela Princesa terá que voltar ao leito, e quanto ao Príncipe, seu bom marido, é bom que se disponha a andar, pois sei de um lugar, bem profundo, onde bem vivo vai assar.”

TOCA CORAL

LER NA FERMATA 1

Não se pode querer tudo ao mesmo tempo. Impossível viver no passado e no presente. É preciso saber escolher e não tudo querer obter. Pois a verdadeira ventura é uma somente.

Agora tenho tudo, pensa o Soldado. Até que um dia, a Princesa lhe diz:

“ – Eu não sei nada de você, conta para mim, me fala um pouco de você.”
“ – Há muitos anos passados, no tempo que eu era soldado, vivia com minha mãe num lindo lugarzinho, longe, bem longe daqui, mas esqueci o caminho.”

“ – E se a gente fosse lá?” – sugere a Princesa.
“ – Você sabe que é proibido.”
“ –Mas nós voltamos logo e ninguém saberá do acontecido. Vai, confessa. Você bem que gostaria de ir. Sim, você está louco para voltar, estou lendo nos teus olhos, não adianta negar.”

O Soldado acha que não convém arriscar, mas lembra-se da mãe, tem esperança de que ela o reconheça e venha morar com eles. Então eles decidem ir para a cidade. Na pressa de chegar, ele atravessou a fronteira sem perceber que a princesa havia ficado para trás.

Ao atravessar a fronteira, o Diabo apareceu diante dele, estava com o violino novamente e começou a tocar a Marcha Triunfal do Diabo.

COMEÇA A MÚSICA

O Soldado abaixa a cabeça e põe-se a seguir o Diabo. A Princesa o chama, ele pára um instante, mas prossegue, pois nada pode fazer, está sob total domínio do diabo novamente.

FIM.

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A principal característica de grandes obras, sejam musicais, literárias ou, como neste caso, uma mescla das duas juntamente com a dança, é o fato de promoverem uma reflexão atemporal. No caso de “A história do Soldado”, a primeira e talvez a mais aparente crítica de Stravinsky está justamente na guerra. Datando do fim da primeira grande guerra, Igor estava carregado de indignação perante as inúmeras mortes de soldados russos, por isso, ao caracterizar o soldado João, logo troca o seu rifle pelo violino.

O Aristofonia Crew tem o prazer de apresentar a seguir um trexo da entrevista feita com o próprio Stravinsky durante uma sessão de ressurreição assistida pelo grupo de batuque Príncipe Custódio de Xapanã pelo pai-de-santo Jorginho Ijexáoyó:

“Estava na primavera de 1917, quando comecei a pensar nesta obra, embora na época eu não consegui começar fazer nada, já que eu estava debruçado sobre Les Noces e sobre o poema sinfônico Rossignol. Depois da guerra, eu tive a intenção de escrever um espetáculo dramático para um teatro ambulante. Como eu tinha pensado na ocasião, seria um grupo pequeno de intérpretes para poder realizar uma tournée no interior da Suíça. A historia que me seduziu era de um soldado russo que desejava fazer com que o Diabo bebesse muita Vodka. Eu descobri outras histórias que envolvia um soldado e o Diabo, e resolvi então colecionar estas histórias. A compilação dos diversos textos foi feito por Afanasiew, que os recrutou entre os camponeses logo após a guerra russo-turca e por mim mesmo, mas o libretto foi escrito por Charles-Ferdinand Ramuz. Eu trabalhei com ele traduzindo o meu texto russo palavra por palavra. Os textos são efetivamente cristãos, e o Diabo é o Diabulus da cristandade, um personagem vivo, multifacetado. A primeira idéia era transportar o período e o estilo de nossa peça para uma época indeterminada, por volta de 1918 não importa que país, sem tocar no aspecto relígio-cultural do Diabo. O soldado estará uniformizado como um simples soldado do exército suíço em 1918. Os nomes nos locais como Denges e Denezy, são fictícios. Embora a peça seja neutra, nosso soldado é definitivamente visto como a vítima do conflito mundial em curso na época. Esta obra está entre minhas obras cênicas com alusão contemporânea”.

Igor Stravinsky – A História do Soldado (The Soldier’s Tale)

Appaz

Smokey Rolls Down Thunder Canyon – Devendra Banhart

Não faz muito que nasci. E a música com a qual cresci, contemporaneamente, sempre me decepcionou um pouco. Pensava, como grande parte dos apreciadores do bom som, nos antigos jovens que desenvolveram suas aptidões musicais nas décadas passadas. Eu os invejava. Estes cresceram numa época de grandes revoluções no cenário musical, seja erudito, jazz ou rock, e tinham como objetivo a tentativa da música. Queriam, acima de tudo, a expressão, juntamente com a destreza musical.  Por conseqüência, obtinham mercado. Sempre invejei isso. Continuo a fazê-lo. Porém, não pretendo aqui demonstrar minhas infelicidades com a nossa agora moderna música.

No meio de tanta merda, sempre há algo decente, por mais estranho que seja.

Deixei de ser ignorante e comecei a buscar coisas novas. Abri meus ouvidos. Repentinamente, vibra em meus tímpanos uma música interessante, esquisita e certamente única, de um compositor anacrônico, um ripongo setentista nascido na década de oitenta: Devendra Banhart.

Nascido, 30 de maio de 1981, em Houston, Estados Unidos da América, e crescido em Caracas, Venezuela, o garoto teve uma infância movimentada e banhada de religiosidade e cultura indiana. De família recebeu o sobrenome Banhart, no cartório foi registrado: Devendra Obi Banhart, sendo o primeiro nome um sinônimo de Indra (deus indiano do clima e da guerra… e, também, rei dos deuses) e o segundo homenagem ao personagem Obi-Wan Kenobi, do Star Wars. Em 98 foi estudar no Instituto de Artes de São Francisco. Mas o negócio dele era bicho grilagem, tocar de quando em vez, sem muita pretensão. Logo cansou da vida acadêmica e, em 2000, largou os Estates e foi para França tentar ganhar a vida com música. Abrindo show de bandas indies, apenas na voz e no violão, começou a chamar atenção. Porém, logo teve que voltar para sua cidade, São Francisco, e no mesmo ano grava o demo The Charles C. Leary.

Em sua terra natal, ambicionava ganhar mais valor. Foi, sabiamente, juntando-se com quem compartilhava com ele semelhantes ideais musicais, e em pouco tempo se tornou o expoente do movimento New Weird America. Mistura entre folk, psicodelismo, rock, e outras denominações, a Nova América Esquisita foi de grande importância para o surgimento de novas bandas, várias tendo a grande participação do Sr. Banhart.

Especificamente em 25 de setembro de 2007, surge Smokey Rolls Down Thunder Canyon, álbum fascinante e de extrema criatividade, começando com seu nome sem sentido. Sem muita dúvida, digo: é a melhor obra dele. Diferente de alguns álbuns anteriores (exceto Cripple Crowl, álbum anterior a este), nos quais ele explorou quase apenas a voz e o violão, Devendra compõe um leque inusitado de músicas e as elabora excelentemente, uma a uma, dando a cada seu devido tratamento. Não há semelhança de estilo entre elas. Arranjos únicos, melodias variadas, ritmos e batidas distintas, a unicidade das músicas é perceptível. Salpicou um pouco de tudo nelas. Música brasileira em Samba Vexillographica, um pouco de Take Five em Seahorse, pagada swingada em Lover, talvez hebraico em Shabop Shalom. Na faixa Rosa, o ex Los Hermanos, Rodrigo Amarante, compartilha a cantoria, ora espanhol ora português. O mesmo é feito por Gael García Bernal, na primeira música, Cristobol.

Para nossa inveja, Natalie Portman era sua namorada na época e acabou participando do clipe de Carmensita.

O interessante de tudo isso é que Banhart foi o compositor, arranjador, produtor e instrumentista do álbum, inclusive, a gravação foi toda feita no estúdio de sua própria casa. Não é qualquer um que faz isso, com tal qualidade e perspicácia. Além disso, ele tinha à disposição um grupo seleto de músicos para sustentar suas excêntricas idéias. O álbum se completa, certamente, com as interessantes, porém surreais, letras, sempre com uma boa dose ironia e humor.

Segundo o compositor, parte de sua inspiração veio da nossa querida música brasileira, principalmente dos Mutantes (com a qual compartilhou o palco, no show em Londres, 2006, cantando Bat Macumba), Caetano Veloso, Novos Baianos e Secos e Molhados (referência feita na foto acima).

Curiosidade: ele foi um dos entrevistados do documentário “Lóki?” sobre o Arnaldo Baptista e seu comentário foi simples e auto-explicativo “Bom pra caralho”.

Admito, passei bons meses o escutando sem parar, viciado. Porém, indiscutivelmente, valeu à pena.

As tais:

  1. “Cristobal” - 4:30
  2. “So Long Old Bean” – 2:56
  3. “Samba Vexillographica”  - 4:49
  4. “Seahorse” – 8:04
  5. “Bad Girl” – 4:48
  6. “Seaside” – 4:36
  7. “Shabop Shalom”- 4:38
  8. “Tonada Yanomaminista” – 2:56
  9. “Rosa” – 5:08
  10. “Saved” – 5:33
  11. “Lover” – 3:43
  12. “Carmensita” – 4:49
  13. “The Other Woman” – 3:49
  14. “Freely” - 4:59
  15. “I Remember” – 4:25
  16. “My Dearest Friend” – 2:36

Os músicos:                                                    Convidados:

Devendra Banhart                                            Rodrigo Amarante

Noah Georgeson                                              Gael García Bernal

Luckey Remington                                            Chris Robinson

Pete Newsom                                                  Nick Valensi

Greg Rogove                                                   Linda Perhacs

Andy Cabic

Smokey Rolls Down Thunder Canyon – Devendra Banhart

Mahatma Bode

Dmitri Shostakovich – Symphony No.11 in G minor, op.103 ‘the Year 1905′

Antes de mais nada devo dizer que não sou comunista ou qualquer coisa do gênero, mas independentemente disto, sempre simpatizei e provavelmente sempre simpatizarei com quaisquer movimentos populares dignos de serem levados a sério. Certamente já me chamaram de comuna pois estudar em colégio particular entre uma suposta “alta” classe, seja lá o que isto quer dizer exatamente, e ter verdadeiras brigas políticas tentando impedir simpatias a Yeda, nossa querida desgovernadora, provoca a ostentação de alguns títulos ingratos, a ver: Comunista. Aliás, inclusive votarei no PT.

Tão tá, chega de notas e vamos à peleia.

Todos que conhecem um pouco [para não dizer o mínimo] de história, devem ter noção do que foi a revolução russa de 1917 e do que ela representa hoje para nós. Porém vejamos, não foi do nada que Lenin e seus camaradas deram início a essa formidável mudança nos padrões patrão-empregado. A miséria russa existente antes da revolução data praticamente desde sempre que houve Rússia. A revolução francesa juntamente com déspotas esclarecidos [os "políticos" mais SAFADOS que já houveram], que aparece no caso russo mais fortemente na figura da czarina Catarina, culminou em falsas esperanças para a grande massa de servos russos e de todo o mundo. No ano de 1861, o Czar Alexandre II proclamou a Reforma Camponesa Russa, onde os laços de serventia eram quebrados e os então mujiques poderiam se tornar homens 100% free. Reflitam, qual a chance do resultado esperado pelo povo ser plenamente satisfatório? É praticamente zero. A reforma foi boa para um que outro, a grande massa, porém, continuava na merda. Anos mais tarde, mais precisamente em 1904, o Império Russo tomou um pau HOMÉRICO para os japas na guerra russo-japonesa, que tinha por objetivo o controle sobre as áreas das atuais Coreias e da Manchúria, atualmente território chinês e, pasmem, russo. Pois bem, a derrota militar somada à pobreza e aos ideais socialistas geraram uma pequena revolução no ano seguinte, 1905. Foi um movimento bastante desorganizado, aparentemente não tinha liderança, controle e objetivos muito bem planejados. No domingo de 22 de Janeiro [9 de Janeiro no calendário russo, o Juliano] o padre Gregori Gapone liderou uma marcha lenta e pacífica até o palácio de inverno do czar Nicolau II, os manisfestantes entoavam cantos religiosos e também a canção “Deus Salve o Czar”, irônicamente. O padre levava uma petição assinada por cerca de 135 mil trabalhadores, reivindicando direitos ao povo, reforma agrária, tolerância religiosa, por exemplo. Sergei Alexandrovitch Yessenin, grão-duque, ordenou à guarda do czar que não permitissem que a manifestação se aproximasse do palácio, dispersando-a. Ao contrário do esperado pelo aristocrata, a multidão não recuou e devido a este ato de bela teimosia, centenas foram alvejados pelos guardas morrendo no local. Este episódio ficou conhecido como o domingo sangrento e foi a inspiração para uma das mais enérgicas sinfonias de Dmitri Shostakovich, a décima primeira, composta em 1957.

Shostakovich nunca foi um grande simpatizante do regime stalinista, muito pelo contrário, o caráter dito subversivo de algumas de suas obras primordiais, levaram-no a ter alguns problemas com o governo, problemas que foram resolvidos com algumas composições em homenagem à Stalin, incrivelmente estas normalmente surgem como as piores obras do mestre… Mas enfim, sua décima primeira sinfonia rendeu-lhe o premio Lenin, restaurando antigos atritos ocorridos entre Dmitri e o governo stalinista.

O primeiro movimento, Adagio (O Pátio do Palácio), leva em si um clima frio e quieto, porém ao mesmo tempo é carregado de uma atmosfera tensa e ameaçadora. O segundo, Allegro (9 de Janeiro), tem dois grandes ápices, o primeiro consiste na marcha dos trabalhadores até o palácio de inverno para irem reclamar do que já foi dito no parágrafo anterior. O segundo grande momento deste movimento começa, se não me falha a memória, pelo minuto 14, quando orquestra praticamente cai sobre a cabeça do ouvinte com marchas possantes e percussão que se assemelha aos tiros dados pelos soldados. Certamente este é o momento em que é aconselhável segurarem os butiás que se encontram em seus bolsos, pois eles saltarão impetuosamente para fora deles indo de encontro ao chão. O terceiro movimento, Adagio (Memória Eterna), consiste em uma marcha fúnebre inspirada na marcha fúnebre revolucionária, “Vocês Caem como Vítimas”. O quarto e último movimento, Allegro non Troppo (Alarme), inicia-se novamente com uma marcha que atinge um violento clímax, para então voltarmos às características do primeiro movimento seguindo com um extenso solo de corne inglês. O inquieto Dmitri faz com que a orquestra retorne à pancadaria após o solo anterior, onde o novo clímax conta com snare drum [caixa, tarola, caixa clara] e sinos tubulares de onde um tocsin [sino de advertência, alarme] insiste em um resistente e teimoso sol menor, enquanto a orquestra manda bala em sol maior. No final, nenhuma das partes obtém vantagem sobre a outra de forma que a orquestra inteira entoa em sol, nem maior nem menor, antecipando os eventos de 1917.

A gravação que vos ofereço é da incrível Concertgebouw Orchestra de Amsterdam, regida por Bernard Haitink.

Dmitri Shostakovich – Symphony No.11 in G minor, op.103 ‘the Year 1905′

Appaz

Ornette Coleman – Dancing in Your Head

capa do baguio

capa do baguio

Este é meu primeiro post aqui nesse lugar. Escolhi a alcunha de “Pseudocult”. É um prazer estar aqui, finalmente botando o bedelho neste blog que já abordou tantos discos que tenho como queridos, me deixando muitas vezes brabo, e muitas vezes decepcionado. Agora eu posso fazer a minha parte, falando dos discos que escaparam aos meus colegas, mas não a mim.

Escolhi, para começar, este do Ornette Coleman, o segundo do ano de 1976 e o trigésimo de sua carreira como band-leader. Gravado entre o começo de 73 e o fim de 75, é o primeiro disco do mestre pela Polygram. A cópia que por meio deste disponibilizo é uma reedição do presente milênio que conta com um alternate take de “Midnight Sunrise”.

Se vocês leram o post que esse blog já exibe sobre o Ornette Coleman, podem ter um pouco de noção sobre o que o mestre faz com o ar, mas devo advertílos que o referido post carece de informação. De qualquer maneira, recomendo que leiam ele antes.

Este véio começou com seu primeiro disco, em 59  (disponível no post supracitado), jogando merda do ventilador do jazz. Começamos por definir jazz em suas duas esferas mais aparentes: social e musical. A primeira: música negra derivada do blues tocada por negros em bares americanos com instrumentos acústicos de corda e de sopro. A segunda: música que apresenta um tema e desenvolve sobre ele uma série de improvisações não-notadas. Certo, estas definições podem ser insuficientes, mas acho que alguns já entenderam onde quero chegar.

O “Bitches’ Brew”, do Miles Davis, foi um marco importante, ele transformou o jazz em “o que acontece quando se coloca o Miles Davis e uma galera no estúdio pra tocar por uma semana, e depois deixar o véio trancado com as fitas e uma tesoura”. De fato, o Miles Davis fez um bocado de discos que tentaram mudar as definições então-vigentes de jazz.

Ornette Coleman não é um músico assim. A música dele continua sendo música de negros para negros tocada em bares americanos, apresentado temas e desenvolvendo-os. Por isso já contesto a maioria dos críticos de jazz (e alguns colegas de aristofonia) por considerá-lo avant-garde (ou seja, de vanguarda (pra que usar um termo estrangeiro se temos um perfeitamente apropriado? Resposta: pseudocultismo)).

Primeiro argumento: Como dito acima, Ornette Coleman e seus discípulos não extrapolam, em nível social ou músico-estrutural-metodológico, as “barreiras” do jazz.

Segundo argumento: Desde seu primeiro disco, “The Shape of Jazz to Come”, nosso mestre não preocupou-se com novas posturas, atendo-se àquela que ele mesmo inventou – ou seja, nunca foi vanguarda de si mesmo.

Coleman criou um conceito que batizou harmolodics. O encontro da harmonia com a melodia, lato sensu. O que ele faz, na verdade, é estabelecer um tema, mas sobre ele improvisar sem deixar-se bloquear por nenhum aspecto teórico ou técnico, ao contrário do que faziam os jazzistas anteriores, agrilhoados pela harmonia. A banda de Coleman não improvisa, portanto, sobre música, ela improvisa sobre idéias.

Isto convencionou chamar-se free jazz, nome inapropriado visto que, livre mesmo, só quem toca sozinho.

E mais: o conceito de harmolodics permitia aos músicos, através de modulações, solar ao mesmo tempo utilizando tons diferentes. É um pouco complicado de explicar, e vou deixar esta discussão para um espaço mais técnico.

O disco com o qual vos presenteio conta com uma banda pós-Bitches’ Brew, ou seja, devidamente eletrificada. O baixo é elétrico e com trastes, e somos brindados com as ótimas guitarras de Charles Ellerbee e Bern Nix (este é o primeiro registro dos dois simultâneos, embora os dois estejam presentes no projeto Prime Time (do qual, por sinal, vem toda a banda)).

Em 1972, Coleman teve sua primeira oportunidade de gravar uma obra orquestral, contando até com a London Symphony Orchestra, no que resultou no indigesto “Skies of America” (a qualidade de gravação é horrível e, com certeza, aquilo não é o que o mestre queria como resultado final). Este tipo de estudo, entretando, levou Coleman até o Marrocos, onde aproveitou pra pirar um pouco mais em sua batatinha. O “Dancing in Your Head” é o resultado deste período de experimentação, com a banda do Prime Time.

A terceira (e quarta) faixa(s) apresenta(m) ainda nosso querido crítico Robert Palmer (0 cara que apresentou Coleman à música marroquina) descendo a mão no clarinete (!) junto com Coleman e os Mestres Músicos de Jajouka, gravada(s) NO PRELO pelas feras.

A primeira e segunda faixas são obras-primas do que convencionou chamar-se free funk. Temos um tema com parte A e B, deliciosa e irresistivelmente simples, apresentado e desenvolvido ad nauseam por essa galerinha do barulho (a banda do Prime Time, não o Palmer e os marroquinos). É muito interessante ver como se comporta uma banda, supostamente de funk, tocando em uma situação em que ninguém parece se importar com as cabeças de compasso, entretanto a coisa acaba sendo incrivelmente rítmica e cheia de um suíngue muito claudicante e trôpego. É lindo pescar, no meio de um solo alucinado, o baixo voltando de uma loucura para aterrizar redondamente no tema, que beira o cômico.

É isso. Deliciem-se com este velho dançando dentro da cabeça de vocês.

Ornette Coleman – Dancing In Your Head (1976)

Pseudocult

Ah, as faixas!

1 – Theme from a Symphony (Variation 1) – 15min47s

2 – Theme from a Symphony (Variation 2) – 11min10s

3 – Midnight Sunrise – 4min45s

4 – Mudnight Sunrise 3min49s

Belle and Sebastian – Tigermilk

Eu já tinha ouvido falar dessa banda muito antes de eu ter escutado o Tigermilk, e confesso que sempre mantinha um pé atrás e duvidava da sua qualidade. Primeiro que o nome da banda de algum modo lembra a uma dupla sertaneja. E segundo, eu realmente não estava interressado em qualquer coisa pop rock no momento. No final, só perdi tempo, pois este disco foi uma das melhores surpresas que tive.

Este é o primeiro disco da banda escocesa Belle and Sebastian. A banda não levava a coisa muito a sério e não esperava obter sucesso com o álbum. Mas as ótimas críticas os fizeram famosos e hoje o disco já pode ser considerado um clássico.

A música é leve, intimista, pop e extremamente easy-listening, o que de modo algum diminui sua qualidade. Belle and Sebastian parece ter nascido completo e experiente, e não como um simples projeto amador que realmente foi.

Curiosamente, o grupo nasceu quando seu líder, Stuart Murdoch, estava completando seu curso sobre indústria musical, e Tigermilk foi seu trabalho de conclusão. Em pouquíssimo tempo, a banda se formou, compôs e gravou o disco.

Inicialmente, foram feitos apenas mil cópias deste, que foram lançadas em LP. Somente mais tarde, quando a banda já tinha lançado mais dois álbuns de sucesso de crítica (If You’re Feeling Sinister The Boy with the Arab Strap), é que Tigermilk foi remasterizado e relançado comercialmente em CD.

Faixas (todas compostas por Stuart Murdoch):

  1. “The State I Am In” – 4:57
  2. “Expectations” – 3:34
  3. “She’s Losing It” – 2:22
  4. “You’re Just A Baby” – 3:41
  5. “Electronic Renaissance” – 4:50
  6. “I Could Be Dreaming” – 5:56
  7. “We Rule The School” – 3:27
  8. “My Wandering Days Are Over” – 5:25
  9. “I Don’t Love Anyone” – 3:56
  10. “Mary Jo” – 3:29

O Disco

Johnny

Anthony Braxton – Quartet (Dortmund) 1976

Anthony Braxton é considerado um dos músicos mais importantes do free jazz, levou ao extremo a noção de multi-instrumentista, assoprando o inassoprável, dando preferência para o sax-sopranino, o sax-alto e o clarinete em si bemol.  Utilizou em suas composições os mais diversos recursos vanguardistas, criando uma obra densa e de difícil escuta. Era um indivíduo sofisticado, estudou música no Chicago Musical College e filosofia na Roosevelt University. No ano de 1966 juntou-se à AACM de Chicago, grupo que viria a ser o The Art Ensemble of Chicago, gravando seu primeiro disco, Three Compositions of New Jazz, em 1968. Entre 69 e 74 trabalhou basicamente na Europa, formando diversos grupos, quase sempre quartetos, às vezes montava big bands. Gravou com diversos músicos, entre eles Chick Corea, Dave Brubeck, Dave Holland e Sam Rivers, além de seus companheiros mais habituais do free jazz, Muhal Richard Abrams, Leroy Jenkins e Joseph Jarman.

Este breve relato de seu quarteto tocando na alemã Dortmund em 1976 é uma gravação de máxima excelência, seja pela sua qualidade sonora, seja pela oportunidade de contemplarmos Anthony Braxton Braxton na sua essência free jazz, misturada à organização um tanto quanto erudita. As oscilações entre o hard bop e marchas tradicionais do jazz, mudanças súbitas de estilo que poderiam ser estranhadas por muitos, devem ser encaradas como talvez o limiar entre free jazz e a música avant-garde erudita. Ninguém disse que sofisticação é barbada de ouvir.

Por favor, sirvam-se:

Anthony Braxton – Quartet (Dortmund) 1976

Saudações,

Appaz

Frank Zappa – Cruising With Ruben & the Jets

O disco tem grandes momentos, seja com composições originais deste álbum ou regravações sob novas visões e experimentações sobre o mesmo tema, mesmo que o resquício do original esteja apenas na letra. Essa é a situação em How Could I Be Such a Fool, I’m Not Satisfied, You Didn’t Try to Call Me e Any Way The Wind Blows, todas integrantes do primeiro álbum de Zappa, Freak Out! O estilo musical experimentado neste albúm é o Doo-Wop, estilo bastante mela-cueca criado nos EUA por volta dos anos 40. Claro que Frank está bem longe de compor melacuecamente, portanto nada temam. Zappa dá a explicação em seu livro, The Real Frank Zappa Book, a qual aqui segue um trecho:

There was a lot of nonsense in the press when “Cruising With Ruben & The Jets” came out, about how it “fooled people”. I heard one story that DJ in Philly was playing it like carzy until he found out it was the Mothers, at which point he yanked it. The fact is, everybody knew it is the Mothers Of Invention because it said so on the cover: “Is this Mothers Of Invention recording under a different name in a last ditch attempt to get theie cruddy music on the radio?”

I conceived that album along the same lines as the compositions in Stravinsky’s neoclassical period. If he could take the forms and cliches of classical era and pervert them, why not do the same with rules and regulations applied to doo-wop in the fifties?

The listener wouldn’t really think that a song like “Stuff Up The Cracks” was an honest-to-goodness 1950s song. In terms of timbre, it’s right on the fringe (because of the vocal parts) – but the chords would never happen in original doo-wop…

Como o próprio Frank acaba de nos iluminar, o disco consiste em uma tentativa de subverter os valores do doo-wop da mesma forma que Igor Stravinsky fez com o estilo clássico em seu período neoclássico. Simples assim.

Que fique claro que este é somente o quinto álbum de Zappa, datando de 1968, ano em que além deste foram lançados Lumpy Gravy e We’re Only In It For The Money.

Frank Zappa – Cruising With Ruben & The Jets

Appaz.

João Brasil – Big Forbidden Dance

Pensem comigo: o que M.I.A, Jimi Hendrix, Vivaldi, Eminem, Kibe Loco, Jennifer Lopez, Right Said Fred, Nokia, Amilcka e Chocolate, Avril Lavigne, Iron Maiden, Faith no More, Santana, Snoop Doggy Dog, Farofa Carioca, Madonna, Rolling Stones, Bon Jovi, Queen, Gwen Stefani, Jay Z, Dead or Alive e Mc Créu tem em comum?

A resposta é: eles estão neste disco. Este disco, cujas faixas não se parecem com nenhum outro mashup que eu já ouvi na minha vida (a fortiori, cujas músicas não se parecem com qualquer outra coisa que eu tive a fortuna de apreciar), reune artistas de toda sorte em um frenesi sampleático e genuinamente inusitante do início aparentemente despretensioso em Mia Too Sexy In The Bathroom até o final fulminante em Big Lambada – sem nunca deixar a peteca cair. Fato é: me arrancou os butiás do bolso quando eu ouvi já pela primeira vez – falo com toda sinceridade quando digo que nunca ouvi nada parecido antes (não digo só pelo marketing. Poderia dizer, mas não digo), e acredito que esse é um dos melhores elogios que eu posso fazer.

Portanto, aproveitem esta obra brilhante, que é talvez o maior e mais bem humorado elogio ao 4/4 de  toda música mundana e que não tem precedentes -ao menos no meu histórico musical. Se alguém conhece algo do gênero, por favor, me indique nos comentários!

Download: João Brasil – Big Forbidden Dance

Vejam também a páigna do artista: http://www.fmjoaobrasil.blogspot.com

Saudações, Leverkühn.

Eric Dolphy – Out To Lunch

Um dos maiores prazeres que surgem em conseqüência de um certo nível de conhecimento, seja do que for, é a possibilidade de haver o tipo de discussão onde é difícil sair contrariado, mas sim adicionado em informações e ideias. Seguindo esta possibilidade, tive esses dias um debate com o dono de outro blog, o Impromptu. Havia o conflito, mesmo que este não vá gerar conseqüências conflitantes, quem seria o melhor tecnicamente, Eric Dolphy ou John Coltrane? Creio ser dispensável a escolha definitiva de um sobre o outro, é desnecessário para a admiração de ambos, além de poder tratar-se de um juízo de gosto, indiscutível, portanto. A questão seguiu, ainda que via twitter, e rendeu bons frutos, para mim, ao menos. Um argumento que surgiu foi o de que Trane é mais admirado pelo fato de que sempre tocou entre os melhores possíveis, Elvin Jones, Jimmy Garrison e McCoy Tyner, para termos como referencial a banda de A Love Supreme, beira a qualidade que poderíamos chamar de celestial. Mas saliento que este argumento atém-se somente à admiração que Coltrane tem em relação aos seus álbuns, não diretamente à sua técnica. Outra pedra no caminho de uma constatação final é a diferença de sonoridade entre ambos: Dolphy formou um quinteto para Out To Lunch em que ele tocava praticamente qualquer coisa assoprável, neste caso não se distancia de Coltrane, realmente. Além disso, completavam a banda uma bateria, um trompete, um contra-baixo, que por vezes é tocado com arco, e um vibraphone, instrumento que dá imensa particularidade ao seu som. Coltrane usou em A Love Supreme, um quarteto: piano, baixo, bateria e Coltrane, uma formação talvez mais convencional. Tal diferença de sonoridade dificulta muito a minha análise, talvez por falta de conhecimentos musicais mais profundos, mas creio ser algo a ser levado em conta.

Eric Dolphy tem uma história breve, morreu aos 36 anos, vítima de preconceito e negligência. Deu seus primeiros passos no quinteto de Chico Hamilton, tendo a oportunidade de rodar o país. No final da turnê, se despediu de Hamilton e mudou-se para Nova Iorque. Na Big Apple começou a tocar com Charles Mingus, sendo considerado pelo gênio do baixo como o seu principal intérprete. Posteriormente contribui com John Coltrane, o velho Trane dizia que Dolphy era o único capaz de tocar como ele. Também tocou com Ornette Coleman na gravação do clássico Free Jazz: A Collective Improvisation. Como muitos jazzistas, Eric foi buscar melhores condições na Europa, onde o jazz era bastante admirado. Foi em Berlim no ano de 1964 que Dolphy foi aos céus. Chegou ao hospital em coma, os médicos, ao saberem que era um jazzista, acharam que o seu estado se devia a uma overdose, coisa comum aos jazzistas, segundo o que devem ter pensado. Infelizmente o seu coma era devido ao fato de Dolphy ser diabético. Então, devido à uma mistura de preconceito e negligência, faleceu.

Pois bem, Out To Lunch é considerado como um dos grandes álbuns do jazz. A comparação feita dele com o A Love Supreme no primeiro parágrafo é em razão de terem sido gravados no mesmo ano e serem as obras de maior significância de ambos. Trata-se de um álbum engenhoso, Dolphy explora ao máximo as possibilidades do clarone, flauta transversal e sax alto, além disso a banda parece encarnar-se nas grandes performances do leader, rendendo excelentes participações dos outros músicos.

Os músicos:

  • Eric Dolphy – clarone, sax alto e flauta
  • Freddie Hubbard – trompete
  • Bobby Hutcherson – vibraphone
  • Richard Davis – baixo
  • Tony Williams – bateria

As músicas:

  1. Hat And Beard [8:25]
  2. Something Sweet, Something Tender [6:04]
  3. Gazzelloni [7:23]
  4. Out To Lunch [12:09]
  5. Straight Up And Down [8:19]

Lambam seus dedos com este anti-jazz:

Eric Dolphy – Out To Lunch

Appaz

Les Stances à Sophie – Art Ensemble of Chicago

Nos confins dos anos 60, formou-se um grupo curioso de jovens musicistas talentosos, com um objetivo claro: abstrair o máximo da música mundana da época, baseando-se no jazz. Surgiu, portanto, o pouco conhecido AACM – Association for the Advancement of Creative Musicians, na fervorosa Chicago. Organização sem fins lucrativos, a única intenção deles era tentar elaborar uma nova sonoridade jazzística, independente de qualquer outra. O propósito era sabido: renovar, o caminho, no entanto, era desconhecido. Era o que eles precisavam, uma vereda, e a buscaram em diversos âmbitos da música, tonais, atonais. Sempre com o velho e bom jazz para somar. Avant-garde, free jazz, bebop, jazz fusion, rock, pop, funk, inclusive música erudita, beberam de tudo que é fonte, a fim de encontrar um som inovador, no mínimo. Foi o que aconteceu. Algo extremamente diferenciado foi gerado. Complexa, densa, incidental, arrítmica, entretanto, genial musicalidade chegou aos ouvidos gerais: modern creative jazz.

“Great Black Music, Ancient to the Future.”

Este foi o grande legado do AACM, para todos seus integrantes, este foi o grande ensinamento.

Dos diversos frutos, ora verdes, ora maduros, produzidos pelo AACM, há um que se deve salientar por sua excepcionalidade musical: Art Ensemble of Chicago. Fundado pela junção entre o sax tenor do líder compositor Roscoe Mitchell, o trompete Lester Bowie e o contrabaixo de Malachi Favors, o grupo iniciou a carreira com o atonal Sound de 66. Nele se vê a real intenção da recém formada banda. Foram anos muito produtivos estes, inúmeros álbuns lançados, entrada de novos integrantes, saída, mantendo sempre os três principais, entretanto, precisavam mais, talvez, vivência e experiência. Na virada da década, deixando Chicago, resolveram viajar.

Viajando pela Europa, acabaram na bela e sensual Paris. Reconhecida por ser amante da cultura jazzística, a cidade os recebeu com novas e excelentes idéias. Projetos artísticos, relacionamentos novos, outras culturas. Foi, então, faltando duas semanas para a invalidação dos vistos, que o cineasta israelense Moshé Mizrahi, os convidou para criar uma trilha sonora de um filme que ele estava dirigindo: Les Stances à Sophie. Nasce deste, a obra prima do Art Ensemble of Chicago, homônimo ao filme. Um álbum composto em duas semanas.

Les Stances à Sophie é uma obra sensacional. Experiência musical única: começa com um jazz rock muito pegado, embebido em groove, expresso pela voz de Fontella Bass (mulher de Lester Bowie) o Thème de Yoyo é uma sonoridade intensa e incessante; segue com Thème de Céline, melodias de sax alto, fliscorne e clarinete sobrepostas e resolvidas com melodias geniais; na terceira faixa, Variations Sur un Thème de Monteverdi, há um estudo sobre, obviamente, um tema de Claudio Monteverdi, amplamente desenvolvida nos seus sentidos, rítmicos e melódicos; a música indiana é exposta claramente em Thème de l’Amour Universal (tema inicial do filme) com vocais dissonantes acompanhados de clarinetes agudos e flautas; numa melodia à l’A Love Supreme, Proverbes é um poema musical, belo e atraente, finalizado com um breve canto; o desfecho do álbum, Thème Libre, é uma composição rítmica e atonal, pleno improviso instrumental. Fascinante.

Thème de Céline:

O Art Ensemble of Chicago cultivou sempre as raízes negras da música, visível tanto na percussão tribal quanto nas próprias vestimentas e pinturas corpóreas. Uma personificação da cultura africana. Nos palcos, agiam de forma sempre inusitada, interagindo entre si, improvisavam durante horas, incessantemente, com incontáveis instrumentos. Na viagem à Europa, utilizaram aproximadamente 500 instrumentos. Isso, certamente, caracteriza e demonstra o multi-instrumentalismo dos integrantes.

Faixas:
1. Thème de Yoyo (9:06)
2. Thème de Céline (3:03)
3. Variations Sur un Thème de Monteverdi (I, II, III) (4:47)
4. Thème de l’Amour Universal (3:52)
5. Proverbes (3:56)
6. Thème Libre (8:53)

Musicistas:
Roscoe Mitchell: saxofones, clarinete, flauta, percussão
Lester Bowie: trompete, fliscorne, percussão
Malachi Favors Maghostut: contrabaixo, percussão, vocais
Joseph Jarman: saxofones, clarinete, percussão
Don Moye: bateria, percussão
Fontella Bass: vocais, piano

Les Stances à Sophie – Art Ensemble of Chicago


Quem quiser baixar o filme, aqui estão os links:

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Mahatma Bode