Submarino.com.br
Aristofonia Rotating Header Image

Carla Bley – Tropic Appetites

Encaro como um desafio escrever este post sobre Carla Bley. Tropic Appetites é uma obra única, querer enquadrá-la em alguma classificação do jazz é de certa forma perda de tempo, além disso sua apreciação não depende de rótulos. Um parênteses, me parece que a rotulação musical é o que permite o preconceito de gênero, dado o gosto individual que alguns tem impregnado em seu inconsciente. Temos que ir com a mente aberta para ouvir certos discos.

Carla Bley é uma pianista e compositora [além de, como é de praxe entre virtuosos, multiinstrumentista] californiana nascida em 1938. Basicamente autodidata, mudou-se para Nova York em 57 onde casou-se com Paul Bley. Rapidamente passou a ter suas composições gravadas por diversos músicos e então formou o quinteto Jazz Realities com o saxofonista Steve Lacy posteriormente criando a Jazz Composers Orchestra Association com o trompetista Michael Mantler, seu segundo marido. Originalíssima, sabe como ninguém dosar em sua música influências do jazz de vanguarda, rock’n roll, música latino-americana, asiática e de compositores eruditos como Kurt Weill e Nino Rota, tido por Fellini como seu principal colaborador. Em suas composições, sempre soube deixar espaços para excelentes improvisadores que passaram por suas ensembles, seguindo o exemplo de grandes compositores do jazz.

É um álbum feminino, acima de tudo. Tem melodias por vezes bobas e delicadas como em Funnybird Song [provavelmente a música mais fofa de todos os tempos]. Porém varia melodicamente, por vezes chegando a um resultado que talvez possa, inclusive, criar situações estranhas em ouvidos pouco baleados pela experiência. Bem coisa de mulher, às vezes über-amáveis, às vezes apenas ininteligíveis, claro, enquadrando-se dentro da [quiçá pobre] interpretação masculina que fazemos de vocês, objetos de desejo de heterossexuais. Foi gravado dois anos após o lançamento de sua obra-prima, Escalator Over the Hill, uma ópera jazzística [sim, isso aí] de grandes proporções, de forma que podemos considerar Tropic Appetites um álbum maduro de uma musicista consagrada. Assim como na obra que a precede, as letras deste álbum são de Paul Haines, amigo de Bley, inspiradas em suas próprias viagens ao sudeste da Ásia.

Eis o octeto:

  • Gato Barbieri – tenor sax, percussion
  • Carla Bley − organ, piano, electric piano, celeste, cello, marimba, percussion, vocals, clavinet, producer, engineer
  • Dave Holland – bass, cello
  • Howard Johnson – tuba, bass clarinet, baritone sax, soprano sax, vocals
  • Michael Mantler – trombone, trumpet, valve trombone, producer
  • Toni Marcus – violin, viola
  • Paul Motian – drums, percussion
  • Julie Tippetts – vocals

Carla Bley – Tropic Appetites

Appaz


Frank Zappa – Läther

De todos os álbuns de Frank Zappa, este é certamente o de origem mais obscura, portanto o que tentarei fazer aqui é lançar luz sobre Läther.

Suas faixas foram gravadas entre 1972-76 e embora o disco tenha sido produzido em 77, foi lançado, tal qual Zappa gostaria que tivesse sido, em 1996, em cd, porém. Quase a totalidade de suas faixas apareceram primeiramente nos álbuns Zappa in New York, Studio Tan, Sleep Dirt e Orchestral Favorites lançados entre 78-79, pela Warner Bros. Isto é fato.

Creio que a origem do mistério esteja em uma desavença entre Zappa e a Warner depois de a gravadora ter retirado (sem o consentimento do compositor) Punky’s Whips do álbum Zappa In New York. A música tinha 12 minutos e ocupava quase um lado inteiro do vinil, nas palavras de Frank:

“There was one track that got removed, ‘Punky’s Whips’. They [Warner Brothers] took it out. First of all they had no right to temper with the tapes. Secondly they didn’t pay me for any off the stuff I delivered to them. I mean, they so far in breach of the contract and they’re just so grossly unfair. For instance, that track ‘Punky Whips’ is 12 minutes and 37 seconds long. It’s most of the side. They took it out because they didn’t have the permissions from Punky Meadows to use it. Then they have the audacity to go ahead and release the album with 12 minutes missing. There was something in one of the papers over here complaining about how short the album was. It wasn’t my fault. I didn’t have any control over it. I think Herb Cohen was the one who took it out. [Zappa:1974]”

Esclarecendo: Punky’s Whips é uma música que conta a história de “Little skinny Terry ‘Ted’ Bozzio”, interpretado obviamente pelo próprio Bozzio, que se apaixona por Punky Meadows, guitarrista de uma banda chamada Angel. O grande problema é que Punky Meadows existe e era o guitarrista de uma banda chamada Angel, logo é difícil crer que alguém aceitaria ser o alvo de todo o escracho aparentemente homofóbico da letra de Zappa.

O que sucedeu foi que a Warner se recusou a lançar o disco em 1974, entrando assim em disputas judiciais contra Frank até no mínimo 1978. Já em 77, Zappa molda o formato de Läther, com homéricos oito lados, um disco quádruplo, e o oferece para a gravadora Mercury/Phonogram que é impedida pela Warner de lançar a obra. No início de 78, temporariamente impedido de gravar e lançar qualquer coisa, Zappa toca todo o Läther em uma rádio em Los Angeles, somente 18 anos depois disso foi possível ouvir a obra de cabo a rabo novamente. Infelizmente, a Warner venceu a ação judicial e decidiu lançar o material zappiano que estava em suas mãos: Zappa In New York (sem Punky’s Whips), Studio Tan, Sleep Dirt e Orchestral Favorites estriparam o que poderia ter sido Läther.


Muitos encaram o formato pouco comercial (oito lados, convenhamos), como uma provocação de Zappa à Warner, algo feito no intuito de desencorajar o prolongamento e obrigação de cumprir o seu contrato. É possível que isso realmente tenha sido planejado, afinal como poderíamos argumentar factualmente contra isso? No entanto, para mim é difícil de acreditar que o próprio mentor de Läther como um todo, o faria naturalmente em partes caso não houvessem tretas com sua gravadora.

Mas enfim, o que esperar do conteúdo do álbum? Talvez este seja um dos seus trabalhos mais ecléticos (zappianamente eclético, of course), há fortes traços experimentais e orquestrais, rockzins escrachados, grandes letras satíricas, hodes à guitarra e músicas de transição que não passam de gravações de diálogos entre os músicos dispostos descontextualizadamente entre as faixas. É uma obra sem precedentes na história da música e, por reunir diversas facetas da música de Frank Zappa, deve ser tida como uma de suas pérolas, ainda que este disco possa ter sido considerado como perdido por um bom período de anos.

Disco 1

  1. Re-gyptian Strut
  2. Naval Aviation in Art
  3. A Little Green Rosetta
  4. Duck Duck Goose
  5. Down in De Dew
  6. For the Young Sophisticate
  7. Tryin’ to Grow a Chin
  8. Broken Hearts are for Assholes
  9. The Legend of the Illinois Enema Bandit
  10. Lemme Take You to the Beach
  11. Revised Music for Guitar & Low Budget Orchestra
  12. RDNZL

Disco 2

  1. Honey, Don’t You Want A Man Like Me
  2. The Black Page #1
  3. Big Leg Emma
  4. Punky’s Whips
  5. Flambe
  6. The Purple Lagoon
  7. Pedro’s Dowry
  8. Läther
  9. Spider Of Destiny
  10. Duke Of Orchestral Prunes

Disco 3

  1. Filthy Habits
  2. Titties ‘n Beer
  3. The Ocean is the Ultimate Solution
  4. The Adventures of Greggery Peccary
  5. Regyptian Strut (1993)
  6. Leather Goods
  7. Revenge of the Knick Knack People
  8. Time is Money

Appaz

Mingus Ah Um

Mingus Ah Um foi o seu primeiro trabalho para a gravadora Columbia, foi feito no ano de 1959, um dos anos mais criativos deste brilhante e incendiário baixista/compositor. O álbum é formado por uma verdadeira miscelânea de estilos influentes no jazz em geral: blues, sacadas de seu post-bop, gospel, direitos humanos, evocações de raízes jazzísticas e o piano à la Duke Ellington, seu grande ídolo, colorem as doze faixas desta obra prima.

Com este disco, Mingus lançou alguns de seus temas memoráveis, solidificando-se ainda mais como um dos grandes compositores de toda a história do jazz. Duas deste ábum, Goodbye Pork Pie Hat (uma homenagem ao saxofonista Lester Young que havia morrido sete semanas antes do início das gravações) e a santificada Better Git In Your Soul, se tornaram clássicos do jazz moderno. Além de ambas, a satírica Fables Of Faubus, cuja singular história já foi contada aqui, Jelly Roll (para Jerry Roll Morton, um dos primeiros compositores importantes no jazz) e Open Letter to Duke, também ocupam lugar de destaque no repertório Mingusiano (?).

Pois bem, aproveitem a experiência musicalmente ACACHAPANTE que é ouvir com dedicada atenção um disco de Mingus, saudações.

As faixas:

  1. Better Get Hit in Yo’ Soul
  2. Goodbye Pork Pie Hat [Unedited Form]
  3. Boogie Stop Shuffle [Unedited Form]
  4. Self-Portrait in Three Colors
  5. Open Letter to Duke [Unedited Form]
  6. Bird Calls [Unedited Form]
  7. Fables of Faubus
  8. Pussy Cat Dues
  9. Jelly Roll
  10. Pedal Point Blues [*]
  11. GG Train [*]
  12. Girl of My Dreams [*]

Mingus Ah Um

Appaz.

The Sound of Sunforest

De sons renascentistas, escutados em reinos distantes e mágicos, a um psicodélico-folk-minimalista - este é o leque de abrangência do inigualável álbum ripongo: The Sound of Sunforest.

Gravado no grandioso ano de 1969, não teve um sucesso proporcional à qualidade musical, mas ganhou uma atenção especial por um curioso fato, duas músicas desse álbum estão na trilha sonora de um filme que, contrariando as não oportunidades daquele, indubitavelmente é unanimidade entre muitos cinéfilos (com o mínimo de bom senso).

A banda batizada Sunforest não durou mais que um disco, e assim como veio, partiu. Mas deixou o suficiente para apreciá-la. Surgiu junto com dezenas de outras bandas hippies do fim dos anos 60, e semelhante a elas, possui uma sonoridade característica da época: elementos árcades, sons que remetem a natureza e a magia, musicalidade jocosa e infantil, talvez boba demais, baseada obviamente em baseados e ácidos. Nestes parâmetros que foi desenvolvido este belo álbum.

Terry Tucker foi a Londres com suas duas namoradas Erika Eigen e Freya Houge, onde resolveram criar o tal trio, Sunforest. Por entre chás da tarde, orgias, alucinações e abstrações musicais, foram repentinamente descobertas por um cara da Decca Records e na mesma noite gravaram um demo. Um mês depois deram à luz este mágico álbum. O trio feminino ficou satisfeito com a obra e não esperava pelo que viria, ou quem viria: Stanley Kubrick, para convidá-las a regravar duas músicas para seu novo filme.

Se existiu um diretor de cinema que ouvia muita música, exclusivamente boa, este cara foi Stanley Kubrick. Suas trilhas sonoras, para além do filme, são fascinantes e perfeitamente adaptadas. Por enquanto não vi um filme dele que não afirme isto. Imagino que ele tenha tido essa relação seletiva com toda sua obra, pois a qualidade nela é tanto cinematográfica como musical ou fotográfica ou qualquer arte existente no cinema.

Kubrick é o tipo de gênio mutante, que cada obra faz parte de um contexto e possui suas características únicas. E aqui cabe dizer do tal Laranja Mecânica de 71, cuja trilha sonora é acima citada. Filme futurístico e fabuloso, adaptação da novela homônima de Anthony Burgess, que narra a história de um jovem, Alex, viciado em sexo, violência e Beethoven. Isto basta, vão ver (ou rever) logo o filme. Uma consideração musical final: é interessante em sua trilha sonora a constante presença da música erudita (ora orquestral ora via sintetizador), enquanto a temática do filme é futurista.

Bom, as duas músicas que fazem parte do filme são “Overture to the Sun” de Terry Tucker e “Lighthouse Keeper” de Erika Eigen, 1 e 7 respectivamente. As gravações do álbum aqui postado são diferentes que a do filme. É audível a enorme diferença estilística de ambas, variação eclética que continua durante o disco inteiro.

  1. Overture to the Sun (1:40)
  2. Where Are You (2:42)
  3. Bonny River (2:41)
  4. Be Like Me (2:10)
  5. Mr. Bumble (1:49)
  6. And I Was Blue (2:49)
  7. Lighthouse Keeper (2:04)
  8. Old Cluck (2:41)
  9. Lady Next Door (2:26)
  10. Peppermint Store (2:00)
  11. Magician in the Mountain (4:09)
  12. Lovely Day (2:45)
  13. Give Me All Your Living (2:38)
  14. Garden Rug (2:13)
  15. All in Good Time (3:45)

.

Terry Tucker – Piano, harmônio, cravo, orgão Hammond e vocal

Freya Houge – Violão espanhol, banjo e vocal

Erika Eigen – percussão e vocal.

Um monte de gente – sopros, bateria, cordas, …

.

The Sound of Sunforest

.

Mahatma Bode

Frank Zappa – Over-Nite Sensation

Finalmente completando a dupla de discos indicados por Dweezil Zappa para introduzir os ouvidos na obra de seu pai, Over-Nite Sensation.

O disco é simplesmente uma perfeição no quesito gravação, o estúdio possibilitava que Zappa alcançasse plena primazia em detalhes, os por ele chamados “eyebrows”, as sobrancelhas da composição. É um álbum que apesar de não ser longo, é repleto de clássicos como Camarillo Brillo, Dirty Love, Zomby Woof, Dinah-Moe Humm e Montana.

Sua sonoridade é bastante acessível, em todo caso, é imprescindível lembrarmos que se tratando de Zappa algum tipo de esquisitice pode aparecer para alguns. Creio ser de extrema importância acompanhar algumas das letras, principalmente a sexualmente hilária Dinah-Moe Humm. É sabido que as capacidades de Zappa não se resumem somente ao instrumental.

Como curiosidade, Tina Turner e as Ikettes fazem os backing vocals em várias faixas, penso que sua maior colaboração seja em Dinah-Moe Humm.

  1. Camarillo Brillo
  2. I’m The Slime
  3. Dirty Love
  4. Fifty-Fifty
  5. Zomby Woof
  6. Dinah-Moe Humm
  7. Montana

Over-Nite Sensation – Frank Zappa

Appaz

Charles Mingus – Let My Children Hear Music

-Em outras palavras, eu sou três. Um homem fica sempre no meio, despreocupado, sem se emocionar, observando, esperando que lhe permitam expressar o que ele vê para os outros dois. O segundo homem é como um animal assustado que ataca por medo de ser atacado. E, então, há uma pessoa gentil e superamorosa que acolhe as pessoas no templo mais sagrado do seu ser, aceita insultos, confia, assina contratos sem ler, cai na conversa dos outros e acaba trabalhando barato ou de graça, e quando percebe o que lhe fizeram tem vontade de matar e destruir tudo ao seu redor, inclusive a si mesma por ter sido tão estúpida. Mas não consegue, e volta para dentro de si mesma.

Em suas próprias palavras, este é Charles Mingus. O parágrafo vem de sua autobiografia, um tanto quanto psicanalítica e, não surpreendemente, remonta conversas suas com seu psicanalista além de sua vida pessoal e trajetória musical. O fato de ter sido escrito pelo próprio Mingus, possibilita uma leitura muito íntima e clara, no sentido de que praticamente se pode enxegar através dos olhos do baixista.

Pois bem, aproveitando a deixa, incluo no post um belo disco, sin duda. Let My Children Hear Music é provavelmente a obra sua que mais se aproxima da música erudita, inclusive, no início da quarta faixa, é tocado o princípio de Praeludium III In C Sharp – O Cravo Bem Temperado de Bach. A maioria dos discos mais conhecidos de Mingus utilizam não mais que 6 ou 7 músicos, coisa não muito numerosa quando comparada a esta gravação que utilizou mais de vinte. A grande ensemble pode e deve ser considerada como uma das melhores já reunidas, inclusive se comparada às de Duke Ellington. As faixas germinaram vagarosamente ao longo de muitos anos, sendo ocasionalmente executadas em algumas apresentações, porém onde o número reduzido de instrumentistas não possibilitava à música dimensionar-se da maneira que seu criador havia planejado. Foi apenas no ano de 1971 (8 anos antes que a esclerose amiotrófica lateral levasse nosso brilhante baixista) que Mingus conseguiu reunir e possibilitar a gravação desta que talvez seja sua obra-prima.

  1. The Shoes of the Fisherman’s Wife Are Some Jive Ass Slippers
  2. Adagio Ma Non Troppo
  3. Don’t Be Afraid, the Clown’s Afraid Too
  4. Taurus in the Arena of Life
  5. Hobo Ho
  6. The Chill of Death
  7. The I of Hurricane Sue

Charles Mingus – Let My Children Hear Music

Appaz

Charlie Mingus – Tijuana Moods

Novamente com este que já é assíduo do blog, Tijuana Moods.

Inspirado em uma viagem para a mexicana Tijuana, repleta de orgias sexuais [Mingus releta em sua autobiografia ter transado com mais de vinte mulheres na mesma noite], o disco foi tido como preferido pelo autor por longo período. Sua gravação se deu no ano de 1957. Foi também o primeiro disco de Mingus para uma grande gravadora, a RCA. Seu primeiro álbum estéreo, o disco é notável também por dar início a parceiras de longa duração: com o trombonista Jimmy Knepper, um “branco de alma negra” e Dannie Richmond, um ex-saxofonista que Mingus treinou como baterista.

É um dos discos precursores da moda hispânica no jazz, juntamente com os posteriores Flamenco Sketches (Miles Davis), Olé (John Coltrane) entre outros. Curioso que apesar de ter sido gravadora anteriormente a estes outros, Tijuana Moods permaneceu esquecido pela gravadora até que o sucesso de outros discos de Mingus (em gravadoras rivais, Columbia, Atlantic e United Artists) os obrigou a lançar esta pérola somente em 1962.

Os músicos:

  • Charles Mingus – baixo
  • Clarence Shaw – trompete
  • Jimmy Knepper – trombone
  • Shafi Hadi – sax tenor e alto
  • Bill Triglia – piano
  • Ysabel Morel – castanholas e voz
  • Dannie Richmond – bateria
  • Frankie Dunlop – percussão
  • Lonnie Elder – voz

As faixas:

  1. Dizzy Moods
  2. Ysabel’s Table Dance
  3. Tijuana Gift Shop
  4. Los Mariachis (The Street Musicians)
  5. Flamingo
  6. A Colloquial Dream

Charlie Mingus – Tijuana Moods

Appaz

Igor Stravinsky – A História do Soldado

Em 1918, Igor Stravinsky escreveu uma de suas mais importantes e conhecidas obras, A História do Soldado.
Stravinsky concebeu sua criação como sendo uma obra praticamente teatral, uma história para ser lida, atuada e dançada.
Foi inspirado em um conto folclórico russo, apesar de a versão final ter sofrido modificações do autor, onde um soldado troca seu violino com o Diabo em troca de um livro que poderia prever o futuro.
É executada com um septeto, violino, contra-baixo, clarinete, fagote, corneta (embora seja diversas vezes trocada por um trompete), trombone e percussão, além disso a história tem três narradores, o soldado, o Diabo e um narrador em terceira pessoa.
A música tem características bastante modernas, pela dificuldade da marcação temporal, é muitas vezes apresentada com maestro, embora algumas “ensembles” prefiram não recorrer a tal ajuda.

A verdade é que ando vidrado em Igor Stravinsky e por isso me sinto na obrigação de vos oferecer a oportunidade de também viciarem-se neste russo malhado.
Vê-se claramente as tendências sex-simbólicas vertendo do maestro, certamente uma inspiração para os futuros roqueiros setentistas.

____________________________________________________________________________________________

Pois bem, agora vamos à História do Soldado.

NARRAÇÃO

NO TEMPO MUSICAL

Cansado de caminhar, um soldado volta ao lar.
Vem de muito longe. Andou, andou, muito ele andou.
Só tem dez dias de folga.
Impaciente por chegar e já morto de tanto andar.

ANTES DA CENA 1

O soldado sentou-se à beira de um regato e abriu seu embornal.

“ – Que lindo lugar…, se não fosse esta vida!!!
Sempre marchando, sem nenhum tostão…
Vejam só! Meus trastes todos de pernas pro ar!!!
Até a medalha de São João, meu padroeiro, eu perdi ….. achei, que sorte!!!
Puxa, nada de dinheiro….”

E o Soldado continua a remexer suas coisas, papéis, cartuchos, um espelho que mal refletia sua imagem. A foto da noiva, mas continuou procurando, procurando, até encontrar seu querido violino. Enquanto afina o violino, pensa:

“ – Bem se vê que é ordinário, precisa afiná-lo o tempo todo…”

E começa a tocar…

LER NA CIFRA 17

Eis que surge o Diabo, disfarçado de um velho caçador de borboletas, o Soldado não o viu. O Diabo se aproxima e se coloca atrás dele.

LER ANTES DA CENA 2

“ – Ei, Soldado, me dá esse violino!!!”
“ – Não!!!” – responde o Soldado
“ – Vende então!!!”
“ – Também não!!!!”
O Diabo pega um livro que traz consigo e sugere:
“ – Troca por esse livro.”
“ – Eu não sei ler” – diz o soldado.
Mas o Diabo insiste:
“ – Não é preciso saber ler, quere apostar? Trata-se de um verdadeiro tesouro, é só abri-lo e embasbacar! Jóias, moedas, ouro!!!”

O Soldado pede para ver o livro antes da troca, e o Diabo aceita.
“ – Não adianta tentar ler, soldado, pois não vai entender nada.”
“ – É, eu não entendo nada.”
Mas o Diabo o anima:
“ – Vai, vai folheando, vai folheando…”
O Soldado continua:
“- Mas esse livro vale muito dinheiro, meu senhor, e o violino não me custou quase nada!”
Mesmo assim o Diabo insiste na troca, que finalmente é feita.
O Diabo, após ter tentado tocar o violino, pergunta ao Soldado:
“- Como é, vem comigo?”
“ – Para que, meu senhor?”
“- Você tem que me ensinar a tocar.”
“ – Mas eu só tenho 10 dias de folga.”
“ – Eu te empresto meu carro, não há distância que não vença.”
“- Mas minha mãe e minha noiva estão esperando.”
“ – Logo irá vê-las.”
“ – Mas qual é o caminho?”

“–Irá no meu carro alado, ficará bem hospedado, limpo, descansado, 2 ou 3 dias de passeio extraordinário, e depois, para sempre milionário.”

“ – E o que vamos comer? Pergunta o soldado”
“ – Manjares até não mais poder.”
Arrumando animado suas coisas o Soldado continua:
“ – E prá molhar a goela?”
“ – Vinho velho e delicado.”
“- E a gente pode fumar?”
“- Charutos de Havana, os melhores….”
“- Pois bem, meu senhor, estou a sua disposição.”
“ – Vem comigo, então.”

TOCA MÚSICA CENA 2

E o velho levou o Soldado consigo, e veremos que disse exatamente a verdade, pois o Soldado João pôde comer e beber a vontade. Foi muito bem tratado e ensinou o velho a tocar o violino para, em troca, o livro poder folhear.

SEGUE MÚSICA CENA 2

LER APÓS FERMATA DA CIFRA 5, DURANTE REPETIÇÕES DA MÚSICA DE CENA 2

Dois dias o Soldado passou prazenteiro, mas finalmente veio o terceiro quando, assustado com a enlouquecida disparada do carro alado, vê-se em seu velho lar e reconhece seus amigos e familiares que não lhe dirigem nem mesmo uma palavra. João fica muito perturbado:

“ – Não foram 3 dias, mas 3 anos!!! Tomam-me por um fantasma, não passo de um morto entre os vivos. Devia ter desconfiado dele, mas fiquei a ouvi-lo como um pateta, e até meu violino eu entreguei. Desgraçado de mim o que é que eu vou fazer???”

Enquanto isso, agora disfarçado de negociante, o Diabo se aproxima sem o Soldado perceber.

CENA II DA 6

Então, vendo o Diabo, parte em sua direção para o ataque, mas este, com grande lábia, ilude novamente o Soldado mostrando-lhe seu violino e dizendo:

“ – O que é meu é meu, o que é teu é teu . Agora cada um com o que é seu.”

SUONA DA 6
João começou a ler o livro, e o resultado foi cada vez mais dinheiro, dinheiro, dinheiro. Leu quanto pode e tirou quanto quis e com todo aquele dinheiro pensou logo em negociar, artigos de senhoras primeiro. E assim foi só começar. Mas, arrependido começa a pensar.

“ –Ah!!! Meus fins-de-semana, minhas noites de sábado, quando as moças regavam o jardim… As meninas brincavam de cabra cega, a gente atravessava o portão, sentava-se na relva, tomava um refresco. Ah! As coisas simples, as únicas que falam ao coração. Eles não têm nada e têm tudo, e eu, que tenho tudo, nada tenho!!! Nada, nada, e não posso voltar atrás. Satã, tu me roubaste!!! O que fazer? Será que o livro explica? Ei livro, pode me responder o que fazer para ser feliz??? O que fazer para nada ter??? Você deve saber… o que fazer para retroceder???”

Então ouve a voz de uma velhinha com várias coisas a vender, inclusive um violino que muito lhe interessa. O Soldado João tenta tocar, mas o violino permanece mudo. Ele procura a velhinha, que era novamente o diabo disfarçado, mas ele sumiu, e João irritado atira o violino ao chão.

CENA III – PARTE 2 – MARCHA DO SOLDADO

Cansado de caminhar, o Soldado segue em frente. Aonde ele vai assim? Anda há tanto tempo! Passa o riacho e depois a ponte. Aonde ele vai? Alguém sabe?

Nem mesmo ele sabe para onde ir, pega então outra estrada, sem suas riquezas, tentando ser de novo como outrora. Eis que surge um outro lugar, uma linda cidade, um bar, que felicidade!!! Beber um trago, que tal??? Um golinho não faz mal. E olhando para fora, pôs-se a contemplar a paisagem, o leve tremer da folhagem, muito suave àquela hora. De repente ouve-se o rufar de um tambor.

CAIXA ENTRA
É o Rei desesperado com o grave estado de sua filha! Ela está enlouquecendo de dor! O Rei anuncia que dará a mão da princesa àquele que a curar.

PARADA DA CAIXA

Neste momento João ouve uma voz a lhe falar:

“ –Que tal a princesa? Vai lá e banca o médico, nada irá arriscar, diga: ‘Sou médico militar’. Mesmo que não dê certo, vale a pena tentar… ”

Por que não? O Soldado ergue-se animado e vai embora sem demora. E nos jardins do Palácio os guardas lhe perguntam:

“ –Onde vai com tanta pressa?”
“ –À casa do Rei, ora essa!!!”

TOCA A MARCHA REAL

LER ANTES DO PEQUENO CONCERTO

Mandaram tocar a música na chegada do Soldado ao Palácio, ele foi muito bem recebido, até que o Rei chegou e perguntou se ele era médico, João respondeu: sou médico militar. O Rei estava desanimado, pois vários médicos tentaram curar a princesa, mas todos fracassaram, João lhe garantiu que tinha um remédio infalível. Então o Rei lhe disse:

“ – Amanhã verá minha filha.”
Durante a noite João fica num quarto brincando com um baralho e pensando:

“ –Vou me casar com a Princesa, que além disso é uma beleza…”

Ao pensar, isso ouviu uma voz muito conhecida dizendo:

“ –Alguém chegou primeiro…”

Era o Diabo com o violino.

“ –Está perdido meu amigo, pois o remédio está comigo.”

E o Soldado cabisbaixo reconhece que o Diabo tem o poder, pois ele tem o remédio e João nada pode fazer.

Novamente João ouve alguém falando para ele.

“ –Vamos, você tem que dominá-lo, ele está te dominando porque você está com o dinheiro, jogue com ele e deixe-o ganhar.”

Começa o jogo, e o Soldado propositadamente perde todas as partidas, e à medida que o Diabo vai ganhando, vai perdendo suas forças. João dá bebida ao Diabo que está cada vez mais fraco. João tenta pegar o violino, mas o diabo ainda não bebeu o suficiente, João vira vários copos na boca do Diabo, que finalmente cai desmaiado.

Novamente a voz fala a João:

“– Vamos, Soldado, recupera o que é teu!!!”
O Soldado pega o violino e começa a tocar.

TOCA PEQUENO CONCERTO

LER CIFRA 28
“–Senhorita, agora já se pode afirmar que com certeza vai sarar, vamos depressa vê-la, pois que já podemos tê-la, e quando a encontrar é só chegar e ousar, vou correndo para lá, sou forte. Saí do inferno, vou tirá-la da morte”.

João entra no quarto e vê a Princesa deitada na cama, sem se mexer. Ele pega o violino e começa a tocar.

LER ANTES DA CIFRA 4

A Princesa abre os olhos, vira-se para o Soldado e senta-se na cama.

TOCA O TANGO, VALSA E RAGTIME

LER ANTES DA DANÇA DO DIABO

O Soldado e a Princesa estão se beijando no quarto, quando ouvem gritos horríveis vindos do lado de fora. É o Diabo que entra no quarto, dessa vez sem nenhum disfarce, e fica rodeando o soldado e suplicando para que ele lhe dê o violino e algumas vezes tenta arrancar o instrumento à força. A Princesa refugia-se atrás do Soldado de maneira a conservar-se escondida atrás dele. O Diabo, ora recua, ora salta e o Soldado começa a tocar o violino.

TOCA MÚSICA DANÇA DO DIABO

LER ANTES DO PEQUENO CORAL

Em vão, o Diabo tenta unir as pernas com as mãos. Cai no chão. O Soldado toma a Princesa pela mão, vê-se que ele não tem medo e dança com ela em volta do Diabo.

A Princesa pega o Diabo por uma das patas, ambos o arrastam para fora do quarto.

Livres do Diabo voltam a se abraçar.

TOCA O PEQUENO CORAL

LER DURANTE A CANÇÃO DO DIABO

“ –Está bem, por enquanto.” – diz o Diabo – “Mas o reino não é tão grande assim, e quem a fronteira passar em meu poder há de ficar. Melhor não ir além do permitido, senão a bela Princesa terá que voltar ao leito, e quanto ao Príncipe, seu bom marido, é bom que se disponha a andar, pois sei de um lugar, bem profundo, onde bem vivo vai assar.”

TOCA CORAL

LER NA FERMATA 1

Não se pode querer tudo ao mesmo tempo. Impossível viver no passado e no presente. É preciso saber escolher e não tudo querer obter. Pois a verdadeira ventura é uma somente.

Agora tenho tudo, pensa o Soldado. Até que um dia, a Princesa lhe diz:

“ – Eu não sei nada de você, conta para mim, me fala um pouco de você.”
“ – Há muitos anos passados, no tempo que eu era soldado, vivia com minha mãe num lindo lugarzinho, longe, bem longe daqui, mas esqueci o caminho.”

“ – E se a gente fosse lá?” – sugere a Princesa.
“ – Você sabe que é proibido.”
“ –Mas nós voltamos logo e ninguém saberá do acontecido. Vai, confessa. Você bem que gostaria de ir. Sim, você está louco para voltar, estou lendo nos teus olhos, não adianta negar.”

O Soldado acha que não convém arriscar, mas lembra-se da mãe, tem esperança de que ela o reconheça e venha morar com eles. Então eles decidem ir para a cidade. Na pressa de chegar, ele atravessou a fronteira sem perceber que a princesa havia ficado para trás.

Ao atravessar a fronteira, o Diabo apareceu diante dele, estava com o violino novamente e começou a tocar a Marcha Triunfal do Diabo.

COMEÇA A MÚSICA

O Soldado abaixa a cabeça e põe-se a seguir o Diabo. A Princesa o chama, ele pára um instante, mas prossegue, pois nada pode fazer, está sob total domínio do diabo novamente.

FIM.

____________________________________________________________________________________________

A principal característica de grandes obras, sejam musicais, literárias ou, como neste caso, uma mescla das duas juntamente com a dança, é o fato de promoverem uma reflexão atemporal. No caso de “A história do Soldado”, a primeira e talvez a mais aparente crítica de Stravinsky está justamente na guerra. Datando do fim da primeira grande guerra, Igor estava carregado de indignação perante as inúmeras mortes de soldados russos, por isso, ao caracterizar o soldado João, logo troca o seu rifle pelo violino.

O Aristofonia Crew tem o prazer de apresentar a seguir um trexo da entrevista feita com o próprio Stravinsky durante uma sessão de ressurreição assistida pelo grupo de batuque Príncipe Custódio de Xapanã pelo pai-de-santo Jorginho Ijexáoyó:

“Estava na primavera de 1917, quando comecei a pensar nesta obra, embora na época eu não consegui começar fazer nada, já que eu estava debruçado sobre Les Noces e sobre o poema sinfônico Rossignol. Depois da guerra, eu tive a intenção de escrever um espetáculo dramático para um teatro ambulante. Como eu tinha pensado na ocasião, seria um grupo pequeno de intérpretes para poder realizar uma tournée no interior da Suíça. A historia que me seduziu era de um soldado russo que desejava fazer com que o Diabo bebesse muita Vodka. Eu descobri outras histórias que envolvia um soldado e o Diabo, e resolvi então colecionar estas histórias. A compilação dos diversos textos foi feito por Afanasiew, que os recrutou entre os camponeses logo após a guerra russo-turca e por mim mesmo, mas o libretto foi escrito por Charles-Ferdinand Ramuz. Eu trabalhei com ele traduzindo o meu texto russo palavra por palavra. Os textos são efetivamente cristãos, e o Diabo é o Diabulus da cristandade, um personagem vivo, multifacetado. A primeira idéia era transportar o período e o estilo de nossa peça para uma época indeterminada, por volta de 1918 não importa que país, sem tocar no aspecto relígio-cultural do Diabo. O soldado estará uniformizado como um simples soldado do exército suíço em 1918. Os nomes nos locais como Denges e Denezy, são fictícios. Embora a peça seja neutra, nosso soldado é definitivamente visto como a vítima do conflito mundial em curso na época. Esta obra está entre minhas obras cênicas com alusão contemporânea”.

Igor Stravinsky – A História do Soldado (The Soldier’s Tale)

Appaz

Smokey Rolls Down Thunder Canyon – Devendra Banhart

Não faz muito que nasci. E a música com a qual cresci, contemporaneamente, sempre me decepcionou um pouco. Pensava, como grande parte dos apreciadores do bom som, nos antigos jovens que desenvolveram suas aptidões musicais nas décadas passadas. Eu os invejava. Estes cresceram numa época de grandes revoluções no cenário musical, seja erudito, jazz ou rock, e tinham como objetivo a tentativa da música. Queriam, acima de tudo, a expressão, juntamente com a destreza musical.  Por conseqüência, obtinham mercado. Sempre invejei isso. Continuo a fazê-lo. Porém, não pretendo aqui demonstrar minhas infelicidades com a nossa agora moderna música.

No meio de tanta merda, sempre há algo decente, por mais estranho que seja.

Deixei de ser ignorante e comecei a buscar coisas novas. Abri meus ouvidos. Repentinamente, vibra em meus tímpanos uma música interessante, esquisita e certamente única, de um compositor anacrônico, um ripongo setentista nascido na década de oitenta: Devendra Banhart.

Nascido, 30 de maio de 1981, em Houston, Estados Unidos da América, e crescido em Caracas, Venezuela, o garoto teve uma infância movimentada e banhada de religiosidade e cultura indiana. De família recebeu o sobrenome Banhart, no cartório foi registrado: Devendra Obi Banhart, sendo o primeiro nome um sinônimo de Indra (deus indiano do clima e da guerra… e, também, rei dos deuses) e o segundo homenagem ao personagem Obi-Wan Kenobi, do Star Wars. Em 98 foi estudar no Instituto de Artes de São Francisco. Mas o negócio dele era bicho grilagem, tocar de quando em vez, sem muita pretensão. Logo cansou da vida acadêmica e, em 2000, largou os Estates e foi para França tentar ganhar a vida com música. Abrindo show de bandas indies, apenas na voz e no violão, começou a chamar atenção. Porém, logo teve que voltar para sua cidade, São Francisco, e no mesmo ano grava o demo The Charles C. Leary.

Em sua terra natal, ambicionava ganhar mais valor. Foi, sabiamente, juntando-se com quem compartilhava com ele semelhantes ideais musicais, e em pouco tempo se tornou o expoente do movimento New Weird America. Mistura entre folk, psicodelismo, rock, e outras denominações, a Nova América Esquisita foi de grande importância para o surgimento de novas bandas, várias tendo a grande participação do Sr. Banhart.

Especificamente em 25 de setembro de 2007, surge Smokey Rolls Down Thunder Canyon, álbum fascinante e de extrema criatividade, começando com seu nome sem sentido. Sem muita dúvida, digo: é a melhor obra dele. Diferente de alguns álbuns anteriores (exceto Cripple Crowl, álbum anterior a este), nos quais ele explorou quase apenas a voz e o violão, Devendra compõe um leque inusitado de músicas e as elabora excelentemente, uma a uma, dando a cada seu devido tratamento. Não há semelhança de estilo entre elas. Arranjos únicos, melodias variadas, ritmos e batidas distintas, a unicidade das músicas é perceptível. Salpicou um pouco de tudo nelas. Música brasileira em Samba Vexillographica, um pouco de Take Five em Seahorse, pagada swingada em Lover, talvez hebraico em Shabop Shalom. Na faixa Rosa, o ex Los Hermanos, Rodrigo Amarante, compartilha a cantoria, ora espanhol ora português. O mesmo é feito por Gael García Bernal, na primeira música, Cristobol.

Para nossa inveja, Natalie Portman era sua namorada na época e acabou participando do clipe de Carmensita.

O interessante de tudo isso é que Banhart foi o compositor, arranjador, produtor e instrumentista do álbum, inclusive, a gravação foi toda feita no estúdio de sua própria casa. Não é qualquer um que faz isso, com tal qualidade e perspicácia. Além disso, ele tinha à disposição um grupo seleto de músicos para sustentar suas excêntricas idéias. O álbum se completa, certamente, com as interessantes, porém surreais, letras, sempre com uma boa dose ironia e humor.

Segundo o compositor, parte de sua inspiração veio da nossa querida música brasileira, principalmente dos Mutantes (com a qual compartilhou o palco, no show em Londres, 2006, cantando Bat Macumba), Caetano Veloso, Novos Baianos e Secos e Molhados (referência feita na foto acima).

Curiosidade: ele foi um dos entrevistados do documentário “Lóki?” sobre o Arnaldo Baptista e seu comentário foi simples e auto-explicativo “Bom pra caralho”.

Admito, passei bons meses o escutando sem parar, viciado. Porém, indiscutivelmente, valeu à pena.

As tais:

  1. “Cristobal” - 4:30
  2. “So Long Old Bean” – 2:56
  3. “Samba Vexillographica”  - 4:49
  4. “Seahorse” – 8:04
  5. “Bad Girl” – 4:48
  6. “Seaside” – 4:36
  7. “Shabop Shalom”- 4:38
  8. “Tonada Yanomaminista” – 2:56
  9. “Rosa” – 5:08
  10. “Saved” – 5:33
  11. “Lover” – 3:43
  12. “Carmensita” – 4:49
  13. “The Other Woman” – 3:49
  14. “Freely” - 4:59
  15. “I Remember” – 4:25
  16. “My Dearest Friend” – 2:36

Os músicos:                                                    Convidados:

Devendra Banhart                                            Rodrigo Amarante

Noah Georgeson                                              Gael García Bernal

Luckey Remington                                            Chris Robinson

Pete Newsom                                                  Nick Valensi

Greg Rogove                                                   Linda Perhacs

Andy Cabic

Smokey Rolls Down Thunder Canyon – Devendra Banhart

Mahatma Bode

Dmitri Shostakovich – Symphony No.11 in G minor, op.103 ‘the Year 1905′

Antes de mais nada devo dizer que não sou comunista ou qualquer coisa do gênero, mas independentemente disto, sempre simpatizei e provavelmente sempre simpatizarei com quaisquer movimentos populares dignos de serem levados a sério. Certamente já me chamaram de comuna pois estudar em colégio particular entre uma suposta “alta” classe, seja lá o que isto quer dizer exatamente, e ter verdadeiras brigas políticas tentando impedir simpatias a Yeda, nossa querida desgovernadora, provoca a ostentação de alguns títulos ingratos, a ver: Comunista. Aliás, inclusive votarei no PT.

Tão tá, chega de notas e vamos à peleia.

Todos que conhecem um pouco [para não dizer o mínimo] de história, devem ter noção do que foi a revolução russa de 1917 e do que ela representa hoje para nós. Porém vejamos, não foi do nada que Lenin e seus camaradas deram início a essa formidável mudança nos padrões patrão-empregado. A miséria russa existente antes da revolução data praticamente desde sempre que houve Rússia. A revolução francesa juntamente com déspotas esclarecidos [os "políticos" mais SAFADOS que já houveram], que aparece no caso russo mais fortemente na figura da czarina Catarina, culminou em falsas esperanças para a grande massa de servos russos e de todo o mundo. No ano de 1861, o Czar Alexandre II proclamou a Reforma Camponesa Russa, onde os laços de serventia eram quebrados e os então mujiques poderiam se tornar homens 100% free. Reflitam, qual a chance do resultado esperado pelo povo ser plenamente satisfatório? É praticamente zero. A reforma foi boa para um que outro, a grande massa, porém, continuava na merda. Anos mais tarde, mais precisamente em 1904, o Império Russo tomou um pau HOMÉRICO para os japas na guerra russo-japonesa, que tinha por objetivo o controle sobre as áreas das atuais Coreias e da Manchúria, atualmente território chinês e, pasmem, russo. Pois bem, a derrota militar somada à pobreza e aos ideais socialistas geraram uma pequena revolução no ano seguinte, 1905. Foi um movimento bastante desorganizado, aparentemente não tinha liderança, controle e objetivos muito bem planejados. No domingo de 22 de Janeiro [9 de Janeiro no calendário russo, o Juliano] o padre Gregori Gapone liderou uma marcha lenta e pacífica até o palácio de inverno do czar Nicolau II, os manisfestantes entoavam cantos religiosos e também a canção “Deus Salve o Czar”, irônicamente. O padre levava uma petição assinada por cerca de 135 mil trabalhadores, reivindicando direitos ao povo, reforma agrária, tolerância religiosa, por exemplo. Sergei Alexandrovitch Yessenin, grão-duque, ordenou à guarda do czar que não permitissem que a manifestação se aproximasse do palácio, dispersando-a. Ao contrário do esperado pelo aristocrata, a multidão não recuou e devido a este ato de bela teimosia, centenas foram alvejados pelos guardas morrendo no local. Este episódio ficou conhecido como o domingo sangrento e foi a inspiração para uma das mais enérgicas sinfonias de Dmitri Shostakovich, a décima primeira, composta em 1957.

Shostakovich nunca foi um grande simpatizante do regime stalinista, muito pelo contrário, o caráter dito subversivo de algumas de suas obras primordiais, levaram-no a ter alguns problemas com o governo, problemas que foram resolvidos com algumas composições em homenagem à Stalin, incrivelmente estas normalmente surgem como as piores obras do mestre… Mas enfim, sua décima primeira sinfonia rendeu-lhe o premio Lenin, restaurando antigos atritos ocorridos entre Dmitri e o governo stalinista.

O primeiro movimento, Adagio (O Pátio do Palácio), leva em si um clima frio e quieto, porém ao mesmo tempo é carregado de uma atmosfera tensa e ameaçadora. O segundo, Allegro (9 de Janeiro), tem dois grandes ápices, o primeiro consiste na marcha dos trabalhadores até o palácio de inverno para irem reclamar do que já foi dito no parágrafo anterior. O segundo grande momento deste movimento começa, se não me falha a memória, pelo minuto 14, quando orquestra praticamente cai sobre a cabeça do ouvinte com marchas possantes e percussão que se assemelha aos tiros dados pelos soldados. Certamente este é o momento em que é aconselhável segurarem os butiás que se encontram em seus bolsos, pois eles saltarão impetuosamente para fora deles indo de encontro ao chão. O terceiro movimento, Adagio (Memória Eterna), consiste em uma marcha fúnebre inspirada na marcha fúnebre revolucionária, “Vocês Caem como Vítimas”. O quarto e último movimento, Allegro non Troppo (Alarme), inicia-se novamente com uma marcha que atinge um violento clímax, para então voltarmos às características do primeiro movimento seguindo com um extenso solo de corne inglês. O inquieto Dmitri faz com que a orquestra retorne à pancadaria após o solo anterior, onde o novo clímax conta com snare drum [caixa, tarola, caixa clara] e sinos tubulares de onde um tocsin [sino de advertência, alarme] insiste em um resistente e teimoso sol menor, enquanto a orquestra manda bala em sol maior. No final, nenhuma das partes obtém vantagem sobre a outra de forma que a orquestra inteira entoa em sol, nem maior nem menor, antecipando os eventos de 1917.

A gravação que vos ofereço é da incrível Concertgebouw Orchestra de Amsterdam, regida por Bernard Haitink.

Dmitri Shostakovich – Symphony No.11 in G minor, op.103 ‘the Year 1905′

Appaz